Muitos de nós têm por hábito acabar a noite, não na cama, não no lancil da rua a vomitar, não num qualquer after manhoso... mas sim a fazer fila para comprar qualquer coisa para comer, esperando (im)pacientemente pela nossa vez, enquanto os sucos gástricos nos revolvem as entranhas com roncos e urros.
A maior parte dos bares fecha por volta das 2am, e outros pelas 4am... sempre há o que está aberto até mais tarde mas aí a caça ao alimento escasseia, e torna-se também mais desafiante.
Recordo sempre 50% das minhas noites acabadas numa qualquer casa de pasto, numa barraquinha ou roulotte com comida rápida, numa casa de kebabs dos indianos... consoante o apetite e o grau de carência alimentar.
A melhor coisa depois de bebermos muito, tendo vomitado ou não, é ir comer um snack. Há uns anos existiam aquelas bancas estacionadas no centro histórico, pelo menos no Verão. Vendiam crepes com todos os toppings possíveis e imaginários, e cachorros quentes, e cachorros quentes topo de gama! Aquilo eram coisa de categoria. Eram os melhores hot dogs do mundo. Não sei se achava isso por estar cheia de fome e com o estômago e a bílis ressentidos, ou se no frio fresco da noite todo o paladar me era tragável e gratificante, mas o facto é que nunca mais provei iguaria que atingisse o mesmo nível. Cachorros quentes colossais, com batata palha, maionese, ketchup, mostarda, cogumelos, cebola, tomate... e eu adoro exagerar nessas coisas, se fosse preciso chegava a casa e ainda guarnecia a salsicha com fatias de queijo.
Eu ia sempre lá com a Cláudia, minha camarada, pois ambas padecemos de fome intensa aquando do fim da noite, saídas de uma qualquer boate em busca de cheiro a cozinhados pelas ruas e ruelas, como que esfomeadas da Pré-História. Claro que se ainda estivermos embriagadas, comer não resulta tão bem, temos de esperar que a bebedeira passe, para a fome estar no auge, e para apreciar tudo melhor, inclusive não deixar que a parte do cérebro que nos diz se estamos cheias se não, que nessa altura está desligado, nos deixe comer um atrás doutro.
A Cláudia, por sua vez, pedia, não um cachorro quente, mas uma "cadela", tudo menos a salsicha. Curioso.
Houve até uma vez, memorável por sinal, na qual, enquanto esperávamos para ser atendidas no spot da cachorrada quente, eu comecei a dar cotoveladas à Cláudia, para a fazer reparar nos dois gajos que estavam à nossa frente, na fila. Ela, sem se aperceber quem eram, bradou: "Epá, mas o que é que tem estes gajos?!". "Estes gajos" eram o Tim e o João Cabeleira dos Xutos & Pontapés, que também aguardavam pelo ritual do enfardanço. Acabámos por trocar umas palavras, e eles ainda nos convidaram para ir, passo a citar, "à Meia-Praia, fumar umas brocas". Não fomos, claro está, mas ainda hoje me rio, imaginando os dois a empaturrarem-se no meio das dunas, com o charro numa mão e o cachorro na outra.
Bem, fugi ao tópico, divaguei e perdi-me. Onde é que eu ia?... Ah. A fome nocturna. O apetite dos boémios e noctívagos. Pois bem, essas barraquinhas milagrosas deixaram de existir, talvez por falta de licenças, ou falta de clientes, ou falta de paciência de alguém para lá estar a aturar bêbados esfomeados all night long - compreensível. Tentei consolar-me com a ideia de que aquilo nem condições de higiene, asseio ou saneamento básico tinha (sempre me perguntei onde iam os gajos mijar, e onde depois lavariam as mãos... antes de servir o freguês; eventualmente deixei de pensar nisso para não correr o risco de perder o apetite) mas todos os Sábados à noite dávamos por nós saudosas e tristes por já não existirem vendedores de hot dogs e crepes. Umas vezes dava-me para o doce e comia um crepe, que era quase 5 euros. O hot dog era 3 euros, enchia bem o bucho, por mais varada de fome que estivesse, valia muito a pena, isto no caso de me apetecer algo salgado.
Hoje em dia só nos restam as casas (duvidosas) de kebabs, geralmente gerenciadas por indianos, paquistaneses, turcos, enfim, monhés, todos sempre muito solícitos.
Há coisa melhor que um kebab cheio de molho de alho, depois de uma grande bebedeira de whisky, em que o estômago está tão vazio que já não entra mais nada sem ser comida?
Não recomendo o molho picante, porque é pior a emenda que o soneto.
Mesmo assim, um kebab com bebida sai caro, é praticamente 5 euros... mil escudos! Era escusado esse abuso. Mas o prazer é infalível... Eu chegava a salivar só de observar a carne a rodar no espeto. Aquele calor, aquele conforto para o bucho, estarmos num lugar quente, mesmo que com luz de cozinha, à espera de enfardar, é uma sensação única. Ah, e lá também vendem pizza, embora não se comparem às especialidades do italiano.
Sim, havia um italiano que vendia até às tantas, mas desde que foi assaltado (apanharam o ladrão a comer lá dentro, depois de ter roubado o dinheiro da caixa, de tão idiota!) que nunca mais reabriram o estabelecimento, La Foccacia, de seu nome.
Há também uma casa de pasto que serve bifanas e bivalves, entre outros petiscos, até hora tardia. Nunca me aventurei por lá mas eu e a Cláudia chegámos a rondar a área, a ver se o bicho pegava.
Quando já é tarde demais, só nos resta a alternativa DIY, que é voltar para casa e fazer uma tosta, sandes, comer restos, enfim, um iogurtinho, suminho, por aí... Nada que se compare a um mega cachorro quente, claro está, ou a um kebab cheio de couve roxa desfiada, cebola, tomate e aquele pão pita acabadinho de sair do forno.
O cheiro a comida no frio da noite é das melhores coisas do mundo.
Bem... Fritos é que não aconselho, que o fígado nem sempre está em condições de processar.