Julgo que é mais fácil alguém destacar-se numa cidade pequena, ou num vilarejo, muito mais que numa grande metrópole.
No meu caso, isso sempre foi um pau de dois bicos. Os transeuntes locais, provincianos e na sua maioria mentes fechadas, comentam sempre a minha indumentária extravagante. O que nem sempre é bom, só me apetece perguntar-lhes se nunca viram nada do género. E se nunca viram... que se fodam.
E nem vou sequer mencionar o facto da minha reputação nesta cidadezeca andar pelas ruas da amargura...
Bom, mas de quem eu queria falar mesmo era do Bert e da Tina. Se eu tivesse de eleger duas pessoas da minha cidade como as mais atractivas de toda a pólis, estes dois estariam no Top 5.
O Escocês Bert Runcie é daqueles homens, que por mais velho e decrépito que esteja, não acho que passe despercebido. Anda sempre sozinho, acompanhado por um cão pequeno e igualmente caricato. Geralmente vejo-o em esplanadas, a fumar, aparentemente descontraído. O facto de ser um homem alto, solitário e misterioso (mesmo que esse misterioso seja um misterioso com uma aura algo decadente) sempre me chamou a atenção. Não deixa de ser um homem carismático, deve estar na casa dos 50 ou 60, mas acho que tem estilo, e é intrigante também. Foi tatuador durante muitos anos, pelo que consta. Hoje em dia tudo aponta para que ganhe a vida fazendo pequenas negociatas relacionadas com estupefacientes, i.e. dealer.
Uma vez fiz conversa com ele, porque o achava charmoso e parecido com o Bill Nighy, para muita irritação da Cláudia, que está convencida que o homem está enfermo, tendo em conta a sua duvidosa magreza.
Por mais curiosidade que tenha em relação a este homem, não acho que ele se dê a conhecer a ninguém. É essa a ideia que deixa transparecer, e talvez seja também isso que me desencadeie tanto interesse. Sempre que lhe digo olá, sinto-me quase que intimidada. Ou tímida.
Vou agora falar da Sebastiana aka Tina. E acreditem quando vos digo que ela é a lufada de ar fresco do banco Caixa Agrícola. Aquela mulher é quase mítica. Quem dera a muitas de vinte serem como a Tina, que tem quarenta e tal anos. Acho que todas as adolescentes deviam olhar para ela e pensar, de forma promissora: "Um dia quero ser como aquela senhora.".
A Tina é hipnotizante. E não é só por ser loira e ter olhos claros. Aquela mulher exala sensualidade por cada rua que passa. Quando vou ao banco e me cruzo com ela, não consigo ficar indiferente e acho que ninguém consegue realmente ignorá-la. Não é muito alta, mas tem um corpo invejável, e um perfil algo felino. Veste-se muito bem, sabendo realçar o que de melhor há nela. Ninguém resiste a uma mulher envergando a clássica pencil skirt, salto alto, voz de protagonista de um film noir dos anos 40, cabelo apanhado, revelando um bonito pescoço e uma elegância, uma classe... que não consigo testemunhar noutra mulher, dentro das muralhas desta cidade.
Uma vez, houve uma cena que me ficou gravada na memória, por ser tão cinematográfica: a Tina a descer a rua, e o pessoal do banco, e até os farmacêuticos da farmácia ali perto, virem à porta, para vê-la passar. Parecia a Bellucci a andar pela baixa siciliana, no filme Malèna, mas numa versão contemporânea. Não é brincadeira.