Eu deveria fazer como o Martinho da Vila e escrever uma cantiga sobre, não todas as mulheres que já tive, mas sobre todos os patrões que já aguentei.
Já tive uma patroa que me fazia trabalhar das 8am às 8pm e no fim, insatisfeita com o meu trabalho (empregada de mesa, empregada de balcão, mas também montava e desmontava a esplanada, limpava as retretes e todo o estabelecimento), despediu-me.
Tive um casal de patrões que me chegou a chantagear, imagine-se. Diziam que iriam contar umas merdas sobre mim ao meu pai se eu não aceitasse trabalhar durante mais alguns dias. Metiam-se sempre na minha vida e comentavam-na com todas as velhas que pululavam pela loja. Também me obrigavam a fazer crepes, sem experiência nem condições de higiene, em frente à populaça, que aguardava. Deu merda e eu apanhei um melão, obviamente.
Pagavam-me uma miséria e mandavam-me pressionar os clientes a comprar qualquer coisa - detesto fazer isso porque também detesto quando o fazem comigo.
Como vingança, recusei-me a tentar apanhar o rato que andava pela loja/cafetaria durante à noite. Ia aos computadores do andar de cima, deixava-os em sites pornográficos, aos berros, dizendo que era obra de taradagem que frequentava o local. Ao serão, aviava os licores de figo que lá vendiam. Ou seja, não fiquei a perder na totalidade.
Tive patroas em lojas de roupa, as "gerentes de loja", que me infernizavam a vida. Aquele ofício já era intriguista e competitivo o suficiente, dado que éramos só fêmeas a laborar.
Acreditem ou não, houve uma que até nos revistava as malas no fim do turno, a ver se tínhamos roubado alguma peça de roupa interior. Que parvoíce: se eu quisesse furtar, levava a roupa interior logo vestida, em vez de na mala, sítio que seria obrigatoriamente revistado pela superior. Bah.
Fora isso, levar horas de pé ao som de música comercial aos berros... era uma tortura digna da Santa Inquisição.
Tive um patrão que era um bimbo de primeira, e referia-se às estrangeiras como "cavalonas". Era benfiquista ferrenho, então só falava nisso, e esperava que eu tivesse voto na matéria, quando eu detesto futebol. E tinha esquemáticas duvidosas, isto é, enviava clientela para quartos fora da pousada em questão, etc. Além disso, dizia que eu não era simpática o suficiente. Eu sempre fui simpática e educada, simplesmente não tenho pinta de graxista. Fez-me pensar que teria um futuro assegurado naquele trabalho mas não me renovou o contrato, alegando injustamente que eu não me adaptei. Tretas. Arranjaram foi outro estagiário para me substituir, em que o IEFP pagava 60% do ordenado... Como se eu fosse parva. Se me vinguei? Não vou confidenciar o que fiz, com medo de represálias, mas posso dizer que fiz muito bem, devia ter ido mais longe, e nunca fui apanhada, nem jamais desconfiaram de mim. O que fiz foi inacreditável. Bom, quer dizer, há uma coisa que posso confidenciar, que não serei presa por isso... Havia um carocho que lá ia, pagava por um quarto para se drogar o dia inteiro. Uma vez que ele saiu à rua, eu infiltrei-me no quarto dele, substituí a heroína que estava no papel de alumínio por... Pimenta de caiena, meus amigos, pimenta de caiena! E um pouco de Nesquik, para atingir a cor ideal. Escusado será dizer que, quando o junkie chegou ao "local do crime", passou-se dos carretos, desceu as escadas aos berros, enquanto gritava ao telefone: "Vendeste-me merda, cabrão do caralho! Vou-te rebentar os cornos, 'tás fodido, foda-se!". Eu, a recepcionista inocente, tive de me controlar violentamente para não desatar à gargalhada perante aquele panorama hilariante. Deduzo que o gajo, aquando da negociata da segunda dose, tenha ajustado contas com o dealer. E ainda devia ir a espirrar... Sou terrível.
Lembro-me ainda de um patrão que só mentia, de forma patética, gabando-se de feitos passados de proporções épicas, e que conhecia toda a gente no submundo londrino e além-fronteiras. Ridículo. Era mais baixo que eu, tinha o cabelo de Sansão (com direito a condicionadores que cheiravam a caramelo), dizia às estrangeiras que era perito em conceber orgasmos alheios (awkward...)... E o sócio dele, que ao fim de contas também era meu supervisor, fechava-se no escritório a ver pornografia de contornos sadomaso, com gang bangs em que humilhavam asiáticas e mestiças. Lá hardcore ele era. Tanto que até se peidava e bufava dentro do escritório, e quando lá ia, vinham ao de cima autênticas "Hiroximas". Como ele se esquecia de apagar o histórico, quando eu lá ia para efectuar o fecho de caixa e contar o dinheiro, deparava-me com mil e um vídeos abertos, cujo conteúdo era, de facto, sinal de que ele com certeza ia para o trabalho puxar o lustro ao dito, na sua condição de punheteiro em horário de expediente.
Pois é. E depois de todas estas pérolas, e mais algumas, em que a entidade patronal era burra que nem uma porta, dizia "prontos" e me perguntava se eu tinha namorado, vejo-me num ofício cujo patrão é espectacular. Não tenho qualquer razão de queixa dele. Incrível. O ambiente de trabalho, a empatia entre os membros do staff, é muito importante.
Ao menos desta vez, tive sorte.