Quem escreve um diário, deseja impiedosamente que, de facto, o cadeado faça jus à sua função, e que nunca ninguém venha a ler o que lá está escrito? Isso não será desperdiçar tempo e até dotes literários? Eu compreendo que uma pessoa escreva apenas porque lhe faz bem à alma, porque é um desabafo. No entanto, não deixo de pensar que se a pessoa fizesse da escrita privada uma coisa pública, poderia vir a lucrar com isso. Eu estou a ter um ponto de vista muito oportunista e interesseiro, eu sei... O que é incoerente, porque durante anos e anos... desde a minha infância... escrevi tanto nos meus diários que tenho ali uma pilha de cadernos fechados a cadeado. Já perdi as chaves de alguns e tive de rebentar com a fechadura de um ou outro cadeado. Apeteceu-me ler o meu passado, como se fosse uma história, e foi tudo muito perturbador. Não só não me identifico com o que lá está escrito e registado, como até me envergonho de algumas das coisas, mais precisamente na fase da adolescência. Sinto-me quase despersonalizada quando leio o que escrevi outrora.
No entanto, eu cá nunca tive medo de que os meus manuscritos fossem parar a mãos hostis, e possivelmente mercantis. Na altura, eu valorizava o meu querido diário como sendo um papiro a que tivesse de recorrer dia sim, dia sim. Chegou uma altura da minha vida que não senti tanta necessidade de escrever no diário... Não sei porquê!
Acho que eu achava que as pessoas se iriam sentir impressionadas com o que eu escrevia naquela idade. Se bem que o meu maior medo era que a minha mãe pudesse ler os meus escritos, pois era uma pessoa que teria potencial para me julgar, dado ser tão próxima. Por vezes sentimos mais alívio em abrir-nos para um estranho (não no sentido sexual, pelo menos no meu caso) ou para um diário, que para alguém suficientemente próximo, alguém que nos conheça demasiado bem, e vice-versa.
Há momentos em que gosto de saber exactamente em que data aconteceu determinada ocorrência, se tiver tido relevância na minha vida... e lá vou eu folhear os meus velhos diários cheios de gatafunhos.
Sem comentários:
Enviar um comentário